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Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018, 16h:54

Artigo

Ela não anda, ela desfila: a complexidade da beleza da mulher com deficiência

Me querem sempre como ‘exemplo de vida’, mas nunca como referência de beleza

Descobri que tinha deficiência quando, no ensino primário, fui brincar de roda com um menino e ele se recusou a pegar minha mão, enfatizando: “eu não vou pegar, você nem tem braço”. Essa situação provavelmente se assemelha à de outras pessoas com deficiência. Existe uma ocasião em que a cortina cai e a coloca em uma caixa de estigmas, inclinado ao mais alto posto de diferenciação, de ausência de um membro ou sentido, da deformação e da incompletude corpórea. Para as mulheres, as marcas das cobranças excessivas se agravam.

O fardo no lombo da mulher com deficiência é mais pesado do que ela pode carregar. Além dos percalços em barreiras físicas, comportamentos sociais e de comunicação, as dificuldades em integrar o gênero feminino não deixam de se apresentar. Os padrões de beleza, procedimentos estéticos dolorosos e a indústria que dita vigorosamente o que é belo e o que não é excluem completamente mulheres com limitações físicas, mentais e intelectuais do convívio social, amoroso e sexual. Ser mulher com deficiência é não ver o seu corpo pautado na revista, na novela, nos outdoors, nas passarelas e editoriais de moda. Com isso, não estar representada sequer nas campanhas que prezam pela ‘beleza natural’, pois o que foge demais do modelo ideal, não interessa para a indústria. Quando pautado, o corpo é visto sob a ótica da deficiência e nunca como apenas um corpo bonito da sua forma.

 Também, ser mulher com deficiência é não ter utensílios de estética ou roupas acessíveis para as especificidades da sua estrutura física.  O mercado da beleza quer faturar com a maioria e, mesmo que pessoas com deficiência produzam capital e também queiram estar integradas nesse contexto, são jogadas para escanteio e nem ao menos pensadas no processo de produção e lançamentos de produtos e marcas. Em vista grossa, estar excluída da massiva produção estética não significa muito. No entanto, em um país que é o terceiro no ranking mundial de consumo em beleza e segundo em cirurgias plásticas, possuir um corpo na contramão do que é belo acarreta em uma série de traumas para a mulher com deficiência. Impacta na forma como ela é vista nas ruas, no trabalho, na escola e na participação da vida social.

O entendimento do corpo da pessoa com deficiência como assexuado não é coincidência. Justamente por este motivo, raramente encontra-se esse grupo de pessoas nos bares, casas de música e outros espaços de cultura e lazer. Pensam em acessibilidade apenas para o básico e não consideram a inteiração humana de qualidade uma necessidade. Para a mulher, esse campo de disputas é mais acirrado ainda. Mulheres com deficiência pouco frequentam salões de beleza, lojas de roupa e espaço de estética pela falta de acessibilidade e uma cultura de receptividade para este grupo de consumidoras.

Infelizmente, essa cadeia acarreta em baixa autoestima, adoecimento mental e facilita a violência doméstica contra mulheres com deficiência, visto que uma pessoa que não busca o autocuidado e auto-amor para com o seu corpo, tende a aceitar situações de agressões contra ele. A Agência Internacional de Mulheres com Deficiência apontou que 40% das mulheres com deficiência em todo o mundo são vítimas de violência. A pesquisa indicou ainda que mulheres com deficiência estão muito mais suscetíveis a abusos que mulheres sem deficiência. Essas violações podem se manifestar por agressão física, patrimonial, psicológica, intimidação, fraude ou negligência em cuidados.

O caminho para resgatar essas mulheres é o fortalecimento psicológico para aumentar a autoestima e, indiretamente, a acessibilidade no campo da cultura, lazer e indústria estética também. Se empresários e proprietários se apropriarem da responsabilidade social do seu ofício e buscarem a participação de mulheres com deficiência nesses ambientes, o impacto não será apenas econômico, mas muito maior do que se pode imaginar. O direito à criar e manter a autoestima de mulheres fora dos padrões estéticos deve ser garantido.

Autora

Sarah Santos é uma jornalista e produtora de conteúdo com deficiência de 21 anos formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) que dá palestras sobre deficiência e ser mulher.

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