Quarta-feira, 19 de Junho de 2019

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Terça-feira, 27 de Novembro de 2018, 14h:21

Black Friday vs. Green Friday

Francisco Demontiê Gonçalves Macedo*

Na última sexta-feira tivemos no Brasil e no mundo, especialmente nos EUA e na Europa, a Black Friday, mais uma data, como o Dia das Mães, o Dia dos Pais, o Dia das Crianças, o Natal e etc, que os fornecedores vêm conseguindo emplacar no calendário para, mediante a difusão de agressivas táticas de propagandas, nem sempre honestas, superestimular os consumidores a comprarem sem refletir produtos e serviços dos quais muitas vezes não precisam, com o dinheiro que nem sempre dispõem, para impressionar talvez quem nem conhecem. 

Black Friday é uma expressão em inglês que significa sexta-feira negra. É sempre comemorada no dia seguinte ao Dia de Ação de Graças, celebrado nos Estados Unidos e que acontece anualmente na quarta quinta-feira de novembro. A Black Friday marca o início do período de compras natalinas para os norte-americanos, e de um tempo para cá também, para o restante do mundo capitalista, para quem os Estados Unidos querem sempre se apresentar como modelo. 

Este artigo obviamente não tem o objetivo de exaltar ou fazer mais propaganda da Black Friday, pelo contrário, destina-se a trazer algumas reflexões sobre a Green Friday (sexta-feira verde), um movimento contrário à Black Friday, surgido recentemente na França e que tem um olhar voltado à proteção da saúde e do meio ambiente.  

No mesmo dia em que estava ocorrendo a espetacularizada Black Friday, a Uol noticiou que uma loja de móveis e objetos de decoração chamada Camif, há 70 anos no mercado francês e que atualmente só vende pela internet, tomou uma decisão silenciosa, porém radical: fechou o site para vendas e decidiu simplesmente não participar da Black Friday. 

Outras empresas que participaram do Green Friday mostraram a importância da venda e do conserto de produtos usados, bem como da reciclagem e da reutilização como formas de se tentar frear o consumismo que vem aumentando no mundo ao longo dos anos. 

O avanço tecnológico promoveu a industrialização e, via de consequência, a produção de bens e serviços passou a superar em muito as necessidades normais de consumo humano, gerando uma sobra na produção. Só que em vez de buscar compatibilizar a produção e o consumo, e assim respeitar a lei natural, segundo a qual as necessidades humanas são infinitas e os recursos naturais são finitos, os fabricantes, produtores e comerciantes optaram por criar necessidades artificialmente de consumo nas pessoas. 

Para fazer escoar o excedente da produção, os fornecedores investiram e continuam a investir maciçamente em marketing, que serve tanto para vender honestamente, quanto para ludibriar, enganar e até fazer com que as pessoas comprem aquilo que não querem, até o ponto em que muitos se tornem consumidores compulsivos. 

A Wikipedia, com adaptações, refere-se ao consumismo como um modo de vida orientado por uma crescente e irrefletida propensão ao consumo de bens ou serviços, em geral supérfluos, para se conquistar falsas sensações de prazer, sucesso e felicidade normalmente divulgadas pela mídia juntamente com as propagandas. 

O Ministério do Meio Ambiente esclarece que a humanidade já consome 30% mais recursos naturais do que a capacidade de renovação da terra, e se os padrões de produção e consumo se mantiverem no atual patamar, em menos de 50 anos serão necessários dois planetas Terra para atender nossas necessidades de água, energia e alimentos. 

Quem opta pela Green Friday entende que terá que remar muito contra a maré do consumismo, uma doença emocional que foi artificialmente criada pelo marketing e tem impedido as pessoas de lutarem contra a perda de sua saúde emocional, o superendividamento, a poluição ambiental, o aumento do efeito estufa, o esgotamento dos recursos naturais e a ameaça da vida das futuras gerações. 

A Green Friday deseja, no fundo no fundo, que as pessoas voltem a pensar, refletir e se orientarem pelos ditames da razão, segundo a qual o consumo deve ser feito de forma consciente, levando-se em conta, na hora de escolher os produtos para a compra, o meio ambiente, a saúde humana e animal, as relações justas de trabalho, além de questões como preço e marca, e até quando se deve trocar ou apenas tentar consertar um produto que apresentou defeito. 

Há, portanto, uma clara disputa posta em nossa sociedade todos anos, sempre na quarta sexta-feira do mês de novembro, entre a Black Friday e a Green Friday, sobre como devemos nos comportar em relação ao consumo. A primeira induz, pela propaganda paga, ao consumo irrefletido, desnecessário e destruidor, ao passo que a segunda quer convencer acerca do consumo consciente, necessário e ético. De que lado você está? 

* Servidor Público Federal, Graduado e pós-graduado em Direito, vice-presidente da ABCCON/MS e Coordenador Jurídico do SINDJUFE/MS.

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