18.06.2012 | 16h19 - Atualizado em 18.06.2012 | 17h23
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Do sonho nasceu a luta

Jornal do Ônibus

Por Kaká Fernandez

Em tempos de ‘Rio+20’, em plena Semana do Meio Ambiente, rever conceitos é mais eficiente, às vezes, que colocar em prática algumas ações, que no geral, não vão interferir realmente no rumo caótico que às rédeas tomadas apontam. Talvez pareça um pouco desalentador ver as coisas dessa maneira, mas é apenas mais uma realidade: Ações concretas, àquelas que mudam o rumo dos ventos, são necessariamente coletivas.

Claro que cada um deve fazer sua parte, o “velho” bê-a-bá da reciclagem, a correta utilização da água potável, da destinação correta de resíduos sólidos e o tratamento do esgoto, apagar a luz antes de sair...

 Mas isso apenas não bastará para mudarmos significativamente nosso problema. Para isso é preciso incentivar ações coletivas, que visem um novo modelo de crescimento e de consumo. Nossa sociedade díspar é sem dúvida nenhuma, um dos principais ingredientes dessa ‘máquina de lixo’, que atola e entulha o mundo. O descaso com o que está ao nosso alcance faz de nós o agente principal da degradação ambiental.

Que tal cortar uma árvore? Ela é velha, exótica (não é nativa daqui, mas de outro lugar), ela está em um terreno particular, está atrapalhando o projeto de construção de uma ova agência bancária, ou seja, é um empecilho para o progresso, correto? Não foi dessa maneira que algumas dezenas de jovens pensaram ao ver uma ‘figueira’ gigantesca ser cortada, pouco a pouco, para em fim ser arrancada de seu solo em Dourados.

No dia 25 de setembro do ano passado, em um terreno situado em um dos principais cruzamentos de Dourados, uma árvore, dita por alguns, centenária, teve grande parte de seus galhos cortados. O objetivo da drástica poda era, ao final e a cabo, derrubar definitivamente a árvore. O dono do terreno tinha como projeto construir um prédio que posteriormente seria alugado para um banco nacional. Comovidos com o corte da árvore, diversos estudantes da UFGD iniciaram um movimento que pedia a suspenção do corte.

Em cima da figueira, em volta dela, com cartazes, panfletos, abaixo-assinados, vídeos com depoimentos contrários à derrubada, reuniões com Ministério Público e Prefeitura, semanas de luta, os jovens conseguiram a suspensão do corte. Não antes de ter mobilizado a sociedade douradense a discutir sua relação com a natureza.

Mas esses jovens engajados queriam mais: Não bastava proteger aquele espécime do corte vil, precisavam fazer a cidade acordar para a realidade em que vive. Fundaram então o C.A.R.P.A – Comitê Acadêmico Regional de Proteção Ambiental, pois para eles era preciso discutir o uso do solos, agroecologia, permacultura, hortas comunitárias, áreas de nascente, parques ecológicos.

A iniciativa tomou corpo e já nas primeiras reuniões a necessidade latente de continuar chamando a atenção da sociedade para suas causas pautou a primeira ação do grupo: o Domingo no Parque. O projeto ousado, porém de uma simplicidade cativante, consistia em utilizar de um espaço público destinado ao bem estar, no caso o Parque Antenor Martins, um dos maiores da cidade, para a conscientização.

Com arte, entretenimento, oficina de desenho para as crianças, sacos para recolher o lixo jogado no parque e diversas mudas de árvores nativas do cerrado, os jovens realizaram o feito de mais uma vez ter a atenção dos douradenses voltados para a preservação ambiental. Outros projetos se seguiram ao primeiro Domingo no Parque, igualmente exitosos.

Uma iniciativa reativa a uma situação imposta a eles, o corte de uma histórica árvore, os levou a luta coletiva. Do sonho nasceu a luta. Da luta a conscientização. Um trabalho de formiguinha, mas que gerou resultados positivos. Cada um fez sua parte para o bem coletivo, mas em conjunto. Lógico que isso os fez mudar em relação à maneira como se comportavam em casa, com seu lixo doméstico. Os fez também mudar a maneira como viam o entorno, o bastante para pretender que seu recém-nascido comitê fosse regional.

Quando ainda protestando contra o corte da figueira, chegaram a dizer aos jovens: “Arruaceiros, desçam dessa árvore, vocês estão atrapalhando o progresso!”. A árvore continua por lá, frondosa onde seus galhos não foram cortados, mostrando que progresso e crescimento dependem principalmente de continuarmos a viver nessa terra. Juntos.


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