Terça-feira, 23 de Julho de 2019

POLÍTICA
Terça-feira, 18 de Junho de 2019, 09h:28

Alcides Bernal

Inelegível e sentindo-se traído pelos “amigos”, Bernal entrega comando do PP

O Jacaré

Detentor de uma carreira política meteórica e da façanha de conquistar sozinho, contra tudo e todos, o comando da Prefeitura de Campo Grande, Alcides Bernal, 53 anos, decidiu abandonar a vida partidária. Sentindo-se traído pelos “amigos” e inelegível até 2024, ele anunciou, nas redes sociais, a renúncia ao cargo de presidente regional do PP, o pouco que lhe restava de poder político. 

Apesar de ter obtido quase 47 mil votos na última eleição, Bernal não conseguiu assumir o mandato de deputado federal em decorrência de ter os direitos políticos cassados pelo Tribunal Superior Eleitoral. Os seus votos foram anulados e a vaga ficou para a suplente, Bia Cavassa (PSDB), que teve apenas 17 mil votos.

A última esperança para Bernal ter condições de assumir o mandato na Câmara dos Deputados – e manter o poder político – acabou com a negativa de recurso pelo Supremo Tribunal Federal. Sem chance, o ex-prefeito viu os adversários no partido, que já foram seus principais aliados no passado, pressionar a direção nacional do Progressistas para destituí-lo do comando da sigla.

A cabeça do ex-prefeito foi exigida pelo deputado estadual Evander Vendramini e pelo vereador Cazuza, aliados de primeira hora de Bernal, quando tinha o comando da Prefeitura de Campo Grande. Vice-presidente, Vendramini assumirá o comando da legenda e as eleições previstas para agosto.

“Não consegui o apoio dos meus vereadores, dos meus deputados, então como vou fazer política?”, questionou o ex-prefeito, justificando a renúncia. Em seguida, não escondeu a mágoa. “Brizola dizia: ‘a política usa a traição, mas abomina o traidor”, afirmou, insinuando que foi traído.

Em 2016, quando ficou fora do segundo turno por 2,6 mil votos, Bernal conseguiu garantir a eleição de três vereadores: Cazuza, Valdir Gomes e Dharleng Campos. Desde a derrota nas eleições de 2018, ele vem trocando farpas com o trio. O ápice ocorreu com Gomes, que chegou a procurar a polícia para fazer boletim de ocorrência contra o ex-prefeito.

A mesma situação ocorreu com os dois deputados do PP eleitos no ano passado: Gerson Claro e Evander Vendramini. De acordo com Bernal, eles apoiaram a reeleição de Reinaldo Azambuja (PSDB), mas não cobraram retribuição e a sigla ficou sem espaço no segundo mandato do tucano. “Se for para cada um puxar para o seu lado, ficar colocando a culpa no presidente do partido, é melhor que me afaste”, explicou-se.

Sobre o afastamento do desafeto,Valdir Gomes foi sucinto: “não tinha outra saída”. Já Vendramini tentou se contrapor à gestão polêmica e turbulenta de Bernal. “Precisamos pacificar o partido, organizá-lo para as eleições e fazer o PP ser o tamanho que merece ser. Somos a terceira maior bancada nacional e assim também tem que ser grande em Mato Grosso do Sul”, afirmou, em entrevista ao Midiamax.

Valdir Gomes, que fez boletim de ocorrência contra Bernal, festejou renúncia: não tinha outra saída (Foto: Arquivo)

Bernal não pretende deixar o partido, mas se afastar da vida partidária. “Vou seguir em frente, cuidar de minha família, cuidar de meus amigos, meus eleitores, advogar, voltar para o rádio, quem sabe um dia eu volte”, anunciou.

Com a decisão, o ex-prefeito deixa a política de lado. Bernal se elegeu vereador pela primeira vez em 2004 pelo PMN com 4.772 votos, o 16º colocado. Quatro anos antes, ele só tinha conseguido 614 votos.

Em 2008, já alçado a fama graças ao programa de rádio, ele foi reeleito com 12.294 votos e foi o vereador mais votado da Capital. Dois anos depois, em 2010, elegeu-se deputado estadual com 26.159 votos (13º lugar).

Em 2012, em chapa pura, tendo como candidato a vice-prefeito o pastor e ex-vereador Gilmar Olarte (PP), Bernal teve a mais surpreendente vitória de prefeito de Campo Grande. Superou a campanha milionária de Edson Giroto, então no MDB), que tinha o apoio de 17 partidos, do então prefeito, Nelsinho Trad (PSD) e do governador André Puccinelli (MDB).

A vitória interrompeu o ciclo do MDB no comando da Capital, fechando com cinco gestões consecutivos, com Juvêncio César da Fonseca, André e Nelsinho.

 

Além da estrutura do adversário, o progressista conseguiu superar a campanha difamatória pesadíssima, em que foi acusado de estimular o aborto e do polêmico cheque envolvendo a cooperativa dos taxistas.
A vitória esmagadora no segundo turno, com 62,5% dos votos, não lhe garantiu paz no comando do município. Sob oposição cerrada da Câmara Municipal, do Ministério Púbico, do Tribunal de Contas e dos jornais, ele sucumbiu na madrugada de 13 de março de 2014, quando os vereadores lhe cassaram o mandato.

Para quem apostava no fim da carreira de Bernal, nova reviravolta no ano seguinte. Em agosto de 2015, a Operação Coffee Break revelou a orquestração de plano criminoso para lhe cassar o mandato, comandada pelos seus principais inimigos e empresários, como João Amorim, políticos e vereadores.

Em mais um lance de sorte, o Tribunal de Justiça lhe devolveu o cargo de prefeito e ele voltou para concluir o mandato de agosto de 2015 até dezembro de 2016. O conflito se manteve. A administração foi marcada pela greve na coleta do lixo, buracos nas ruas e liminares do TCE, como a que suspendeu a substituição das luminárias.

Bernal não conseguiu ser reeleito, mas, em outro golpe do destino, o Tribunal de Justiça validou o decreto de cassação do mandato, o que lhe custou o mandato de deputado federal. Agora, sem o comando regional do PP, o ex-prefeito perde o último bastião que lhe garantia visibilidade e poder de barganha na política.

Para os inimigos mais afoitos, a derrocada pode representar o fim da carreira política de Bernal. No entanto, para quem já viu o progressista renascer das cinzas, só um bom vidente para saber o que lhe reserva o futuro, principalmente, porque os principais inimigos do progressista continuam em apuros com a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça.

Aliás, Bernal também enfrenta situação semelhante, com ações por improbidade e de enriquecimento ilícito, bloqueio de bens. Ele sempre assegurou que provará a inocência. Terá tempo até 2024, caso não recupere os direitos políticos antes.

Vendramini contratou o ex-secretário municipal da Juventude e advogado de Bernal, Wilton Edgar Acosta, o que pode sinalizar para a paz no partido e de que manterá as portas abertas ao ex-prefeito.

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