Número de usuários caiu de 201 mil para 102 mil por dia em dez anos; quantidade de linhas também diminuiu e ônibus com ar-condicionado praticamente desapareceram
O transporte coletivo de Campo Grande encolheu nos últimos dez anos — tanto no número de passageiros quanto na estrutura oferecida à população. Dados do Perfil Socioeconômico de Campo Grande, divulgado nesta quinta-feira (27), mostram que o sistema perdeu praticamente metade dos usuários desde 2016, enquanto a frota do Consórcio Guaicurus foi reduzida em 22%.
Em 2016, o transporte coletivo registrava uma média de 201.243 passageiros por dia. Em 2025, esse número despencou para 102.540 usuários diários, uma redução de aproximadamente 49%.
A queda também foi expressiva em relação ao ano anterior. Em 2024, o sistema transportava cerca de 152.977 passageiros por dia. Em apenas um ano, foram aproximadamente 50 mil usuários a menos diariamente.
O número de passageiros registrado em 2025 só não foi inferior ao observado durante 2020, período marcado pelas restrições impostas pela pandemia de Covid-19.
Menos ônibus e menos linhas
Enquanto o número de usuários caiu, a frota colocada à disposição da população também diminuiu.
Em 2016, o Consórcio Guaicurus operava com 587 veículos. Desde 2024, a frota passou a contar com aproximadamente 460 ônibus, redução de 127 veículos, ou cerca de 22%.
A redução ocorreu justamente em um cenário de crescente insatisfação dos passageiros com atrasos, lotação, falhas mecânicas e condições de conservação dos veículos.
Também houve redução na quantidade de linhas. O sistema passou de 195 linhas em 2016 para 166 em 2025, uma queda de aproximadamente 15%.
De 2024 para 2025, a quantidade de linhas caiu mais 2,3%, mantendo uma sequência de cinco anos consecutivos de redução.
Ônibus com ar-condicionado praticamente desaparecem
Outro dado chama atenção na evolução da frota: a redução dos veículos considerados mais confortáveis para os passageiros.
Em 2016, Campo Grande contava com 23 miniônibus executivos equipados com ar-condicionado. Desde 2022, restaram apenas dois.
A quantidade de ônibus articulados também despencou. Eram 38 veículos em 2016, contra apenas 13 atualmente, uma redução de aproximadamente 66%.
Na contramão, aumentou justamente a frota de ônibus classificados como “básico médio”.
O número desses veículos saltou de 82 para 147 em dez anos — crescimento de aproximadamente 79%.
Na prática, os dados revelam uma mudança no perfil da frota: menos veículos de maior capacidade ou com equipamentos voltados ao conforto dos passageiros e mais ônibus básicos.
Um sistema que perdeu usuários e estrutura
A redução simultânea de passageiros, linhas e frota expõe o processo de encolhimento do transporte coletivo da Capital.
Em dez anos, Campo Grande perdeu cerca de 98,7 mil passageiros por dia, ao mesmo tempo em que a frota foi reduzida em 127 veículos e 29 linhas deixaram de ser ofertadas.
O cenário também coloca em discussão a qualidade do serviço prestado à população ao longo do período em que o Consórcio Guaicurus esteve à frente da concessão.
Fim de uma era de 14 anos
Em julho de 2026, após 14 anos à frente do transporte coletivo da Capital, o Consórcio Guaicurus vendeu as empresas que integravam o conglomerado para o grupo HP Mobilidade, com sede em Goiás.
A transferência, porém, ainda depende de validação da Prefeitura de Campo Grande, que havia iniciado uma intervenção no serviço no mês anterior.
A mudança de controle ocorre em meio a uma série de problemas acumulados no sistema.
Ônibus quebrados durante as viagens, veículos com problemas mecânicos, ocorrências de incêndios, passageiros deixados pelo caminho e terminais que enfrentam problemas de manutenção passaram a fazer parte da rotina denunciada por usuários.
CPI expôs problemas na concessão
A situação também foi alvo de investigação da Câmara Municipal de Campo Grande.
No ano passado, a CPI do Transporte Coletivo concluiu os trabalhos e apontou uma série de problemas relacionados à execução do contrato de concessão.
Entre as questões levantadas estavam o descumprimento de obrigações contratuais, problemas na manutenção dos veículos, atrasos e a falta de renovação adequada da frota.
O relatório da comissão reforçou uma reclamação que há anos fazia parte da rotina dos passageiros: a percepção de deterioração progressiva do serviço enquanto o sistema continuava recebendo recursos e benefícios previstos na concessão.
População ficou com a conta
Os números do Perfil Socioeconômico ajudam a dimensionar o tamanho do problema.
Em uma década, o transporte coletivo de Campo Grande perdeu quase metade dos passageiros, reduziu a frota em mais de um quinto e diminuiu a quantidade de linhas disponíveis.
Ao mesmo tempo, veículos com ar-condicionado praticamente desapareceram e a frota de ônibus básicos cresceu 79%.
O desafio agora fica para a nova fase do transporte coletivo da Capital: recuperar a confiança dos passageiros, melhorar a qualidade dos veículos e tornar o sistema novamente atrativo para quem depende diariamente do ônibus para trabalhar, estudar e circular por Campo Grande.
A queda de usuários, porém, deixa uma pergunta inevitável: se a cidade cresceu, por que o transporte coletivo encolheu?
















